quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Exposição: Frida Kahlo

Dia 18 passado estive em Curitiba, capital do Paraná, para resolver algumas questões burocráticas e aproveitei para conferir a exposição "Frida Kahlo - as suas fotografias" no Museu Oscar Niemeyer (MON). Na verdade, a visita foi uma espécie de obrigação já que o MON será o único museu do Brasil a expor as fotografias da artista mexicana. Além disso, a exposição estaria disponível para visitação, inicialmente, entre os dias 17 de julho e 17 de agosto deste ano, todavia, só no primeiro dia de abertura o museu bateu recorde de visitação: 1,2 mil pessoas, o maior número desde a inauguração do espaço em 2003. A exposição no MON também já é recorde em âmbito internacional, tendo recebido mais de 50 mil pessoas só no primeiro mês. Devido ao grande sucesso, a mostra foi prorrogada até dia 07 de dezembro. Portanto, a exposição é um evento único do qual eu não podia ficar de fora!



A exposição conta com 240 fotografias do acervo pessoal de Frida Kahlo (1907-1954), imagens que ela foi acumulando e guardando com meticuloso cuidado e carinho ao longo da vida. Anexo à sala, é também exibido um documentário sobre a vida da artista chamado “Natureza ferida. Memória viva de certos dias”, com produção e realização de Salvador Camarena Rosales e Eduardo Patiño, com quase 27 minutos de duração. A exposição se divide em seis seções através das quais vamos conhecendo a história pessoal da Frida, uma das maiores artistas plásticas do século XX. A primeira parte é dedicada aos pais da Frida composta por aquelas fotografias de família que retratam ocasiões especiais, como primeira comunhão, casamentos e festas. Por meio dessas imagens, somos apresentados ao universo oitocentista mexicano, apesar da particularidade das famílias Calderón e Kahlo.

Frida com 5 anos. Anônimo (1912). Museu Frida Kahlo. (MON, divulgação)

Na segunda seção já somos conduzidos ao mundo de Frida. Lá estão as fotografias que retratam os principais eventos de sua vida, como os dias em que ela repousou em sua cama para se recuperar das cirurgias que havia feito em decorrência de um grave acidente e ganhou de seu pai um cavalete adaptado para poder continuar a se dedicar à pintura; os belos momentos entre amigos e ao lado de seu grande amor, Diego Rivera, na sua Casa Azul.

Frida pintando em sua cama. Anônimo (1940). Museu Frida Kahlo. (MON, divulgação)

A terceira seção é bem curiosa e nos mostra o lado mais íntimo de Frida. Há fotografias que sofreram intervenção da artista, foram coloridas por ela, recortadas, ou até mesmo ganharam os contornos de sua boca, na forma de um beijo! Essas fotografias estão repletas de simbolismos e poesia. A quarta parte expõe a vida íntima por meio de fotografias de amigos e amores. A quinta seção traz fotografias de diferentes temas reunidas por Frida, como cartões de visita típicos do século XIX e retratos de grandes fotógrafos e de amigos pessoais. A sexta e última seção foi reservada para as imagens referentes à questões políticas, principalmente as ligadas ao partido comunista, ao qual Frida era associdada, e também às grandes fábricas do período, como a montadora Ford.


Diego Rivera (no seuestúdio de San Ángel). Anônimo, (ca. 1940). Museu Frida Kahlo. (MON, divulgação) 

Segundo a historiadora Ana Maria Mauad Essus a fotografia é uma importante fonte para conhecer a trajetória de personalidades, famílias ou grupos sociais. Para ela, as fotos possuem mensagens que, ao serem analisadas, possibilitam a recuperação de representações. De acordo com Miriam Moreira Leite, esse exercício de leitura da imagem é significativo no momento em que a fotografia "reproduz da condição do retratado, o que silencia desse grupo e os indícios que permitem o observador perceber ou sentir outros níveis de realidade: sentimentos, padrões de comportamento, normas sociais, conformismo e rebeldia”. Portanto, através da leitura do acervo de fotografias de Frida Kahlo podemos conhecer pormenores e paricularidades do cotidiano e também dos sentimentos que acompanhavam a artista. Com certeza, saímos de lá com "uma parte" da alma de Frida, tão bem preservada em imagens eternas.

Registro da minha presença na exposição.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Um livro que leva a outro, ou como conheci Janusz Korczak

Quem gosta de uma boa leitura não precisa de muito pra abrir um livro: uma capa charmosa, um pocket que dá pra levar pra todo lugar, um preço em conta. Às vezes, o próprio livro te leva a outra leitura. E isso está cada vez mais comum. Muitos jovens, após lerem a série Crepúsculo, foram em busca do livro da Emily Brontë, o clássico “O Morro dos Ventos Uivantes” que é citado durante a história. E, mais recentemente, as vendas do “Diário de Anne Frank” aumentaram graças à febre do autor John Green, “A Culpa é das Estrelas”, devido à visita dos protagonistas a casa onde a jovem se refugiou durante a 2ª Guerra Mundial.

Esse tipo de coisa já aconteceu comigo também, é claro! Mas há um caso especial que se destaca entre os demais. Ocorreu durante a leitura do romance de Diane Ackerman, “O Zoológico de Varsóvia”. Essa obra é baseada em fatos verídicos e transporta o leitor para os anos da Segunda Grande Guerra. Acompanha-se os detalhes desse acontecimento não pelo ponto de vista dos detentores do poder nazista, mas sim, por meio de simples pessoas, testemunhas oculares dos horrores da destruição, que vivenciaram e sofreram num dos piores momentos da história da humanidade.


Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.

Jan e Antonina formaram um casal apaixonado por animais que cuidou e direcionou o Jardim Zoológico de Varsóvia, capital da Polônia. Através dos escritos de Antonina, a autora Diane Ackerman revela o dia-a-dia dos cuidados do zôo e é quase possível sentir a brisa fria e o cheiro das flores de tília, como também os zunidos dos animais. Aos poucos, o leitor se depara com os rumores de guerra e também sofre com as expectativas. Até que, os boatos ficam para trás e dá-se início à essa terrível batalha que se tornou a mais injusta e impiedosa, tanto por seus macabros ideais, como também pela sua artilharia.

Jan e Antonina tiraram partido da obsessão dos nazistas com animais raros, "para salvar centenas de vizinhos a amigos ameaçados de extinção". Esconderam pelo território do zoológico e também na própria casa, quantos refugiados judeus puderam, colocando em risco suas vidas. O zoológico era um dos terrenos mais visados pelos alemães, "o coração do acampamento nazista", sendo inclusive alvo de suas caminhadas par se exercitar, e foi uma difícil tarefa mantê-los longe de suspeitas sobre o que realmente acontecia ali dentro.

Ao longo do livro, histórias paralelas de outros heróis são contadas, altruístas que dedicaram suas vidas a salvar outras, que disseram apenas que não fizeram nada mais do que era o certo a ser feito. Foram "pessoas comuns, nem impecáveis nem mágicas, e que a maioria permanece desconhecida a vida inteira, embora opte por perpetuar a bondade, mesmo em pleno inferno".


Uma dessas pessoas citadas no livro me chamou atenção. Seu nome é Henryk Goldzmit, mas seu pseudônimo é mais famoso: Janusz Korczak (1878-1942). Médico que exercia a pediatria, Korczak abandonou sua carreira promissora em 1912 para fundar um orfanato destinado a crianças de sete a quatorze anos de idade. Quando, em 1940, os judeus receberam ordens nazistas de se mudarem para o Gueto de Varsóvia, o orfanato foi transferido para o “bairro dos amaldiçoados”. Lá, Korczak protegeu, o quanto pode, crianças inocentes das atrocidades de um dos períodos mais tenebrosos da história. Todavia, o dia da deportação para o campo de extermínio chegou em 6 de agosto de 1942. Korczak, prevendo a calamidade e o pavor que tomaria conta daquelas pobres crianças, juntou-se a elas no trem destinado a Treblinka. No relato de Joshua Perle, testemunha ocular do fato, assim foi descrita a cena: “Ocorreu um milagre: duzentas almas puras, condenadas à morte, não choraram. Nenhuma delas fugiu. Ninguém tentou se esconder. Como andorinhas abatidas, elas se agarraram a seu mestre e mentor, a seu pai e irmão, Janusz Korczak”.

As crianças a caminho de Treblinka. Fonte: Michael Radoszewski

A força e a compaixão de Korczak por aquelas crianças também me comoveu e eu precisava saber mais desse ser humano tão corajoso e abnegado. Foi assim que eu descobri o lado pedagógico de Korczak. Ao se dedicar às crianças do orfanato, ele se tornou um verdadeiro educador. Foi precursor na luta em prol dos direitos da criança e do reconhecimento de total igualdade infantil. Registrou seu conhecimento e experiência em diversos livros especializados e também em romances. Dessa forma, cheguei a um de seus livros intitulado “Quando eu voltar a ser criança”. Nele, um adulto cansado de seus problemas sonha com os tempos áureos da infância e magicamente volta a ser uma criança. Sem perder a memória de adulto, ele revive as descobertas da infância através dos olhos da criança que se tornou.

Tradução de Yan Michalski. São Paulo: Summus, 1981. 16ª edição.

Em fevereiro de 2010, logo após a leitura do livro, eu escrevi sobre: O mundo nos molda, pressiona e aperta, até adquirirmos o formato da dureza, fruto das vivências. Porém, já houve uma fase em que a pureza habitava nosso ser. É provável que ainda guardemos alguns resquícios desse longínquo tempo chamado infância, mas, com certeza, muitas são as lembranças que já se apagaram. Quando nos deparamos com uma criança, parece que nos esquecemos de vez que um dia já fomos uma. Impomos nossa força e inteligência sobre elas, crendo na nossa superioridade. Nossa mente anda tão poluída com as preocupações do mundo adulto que acabamos por ignorar tudo o que se passa dentro desses pequenos seres. "Quando eu voltar a ser criança" é um livro encantador que, por meio dos olhos de uma criança, (re)ensina todos os sonhos, medos, descobertas, perdas, alegrias e tristezas de que é feito o mundo infantil. Um mundo tão cheio de cores, mas que podem se desbotar quando a inocência perde espaço para a realidade do crescer.

Espero que aqueles que estiverem lendo este texto também se sintam tocados pelo belo exemplo de Janusz Korczak e busquem conhecê-lo melhor através de seus livros e de sua história.


quarta-feira, 3 de setembro de 2014

O charme da BKF

Há certas coisas nesse mundo que, muitas vezes, estão distantes de nossa realidade, mas fazem parte de nosso imaginário. O maior exemplo disso, para mim, é a cadeira BKF. Antigamente, eu nem sabia que esse era o seu nome, na verdade, não tinha informação alguma sobre a peça, mas, dentre os móveis de brinquedo da minha boneca Barbie tinha uma BKF, à qual eu chamava de cadeira borboleta. De onde eu havia conseguido essa informação, eu não faço ideia. Só sei que não foi infundada, já que a partir da Segunda Guerra Mundial, quando o direito de produção da BKF foi comprado pela empresa norte-americana Knoll, ela passou a ser chamada de Butterfly.

Acredito que, muitas pessoas como eu, já ouviram falar da BKF, conhecem-na por nome ou por fotografia, mas nunca tiveram oportunidade de ter informações mais precisas. Pensando nisso, trago para o post de hoje um pouco da história dessa cadeira, considerada uma das grandes obras do design industrial.

A BKF foi desenhada em 1938 pelos arquitetos do Grupo Astral, o catalão Antonio Bonet (1913-1989) e os argentinos Juan Kurchan (1913-1972) e Jorge Ferrari-Hardoy (1914-1977), cujas iniciais deram o nome à peça. Os três se conheceram em 1937 nos estúdios de Le Corbusier em Paris. Ter convivido e trabalhado com o “Bach” da arquitetura foi, provavelmente, a grande influência para a criação de um dos ícones da modernidade. A BKF é composta por uma estrutura curva de aço de 12 mm formada por uma espécie de dois triângulos cruzados os quais são forrados por uma peça de couro. Visualmente, ela proporciona a impressão de leveza e simplicidade ao misturar os conceitos de rusticidade e industrialização.

Fonte: arxiubak.blogspot.com.br

É claro que os artistas, apesar da criatividade, também se apropriaram da evolução estética do mobiliário para criar a BKF. Dessa forma, vemos uma grande semelhança entre a BKF e a Tripolina, cadeira em madeira de acampamento militar criada pelo inglês Joseph B. Fenby ainda no século XIX. Por sua vez, essa mesma cadeira foi inspirada pelas mobílias de viagem que precisavam ser leves, práticas e confortáveis.

Em julho de 1940, a BKF foi exposta na terceira edição do Salon de Artistas Decoradores de Buenos Aires onde conquistou dois prêmios e reconhecimento nacional e internacional. A BKF também atraiu a atenção do Curador de Design Industrial do Museum of Mordern Art de Nova York, Edgar Kaufmann jr. [sic] (ele não gostava do “júnior” em letra maiúscula). Kaufmann declarou que a BKF era um dos maiores esforços do design moderno e comprou dois exemplares por 25 dólares cada, sendo um deles reservado para compor o acervo permanente do museu.

 Exemplar original pertencente ao acervo do MOMA. Fonte: MOMA.

Em 1944, a BKF ganhou o prêmio de Aquisição do MOMA e, no ano seguinte, foi exposta no Pavillion Jeu de Pomme de Paris. De invenção e objeto de arte, a cadeira BKF se tornou popular e passou a fazer parte de muitos lares, principalmente após a Segunda Guerra Mundial. Importantes personalidades adotaram a BKF como uma espécie de cadeira inspiradora! Os seus traços simples em conjunto com o aspecto grosseiro do couro permitiam ao usuário a adoção de diversas posições, proporcionando a sensação de aconchego do deitar em uma rede, elemento tão comum da cultura argentina.

Ítalo Calvino e sua BKF. Fonte: byricardomarcenaro.blogspot.com.br

Atualmente, é muitíssimo difícil conseguir um exemplar original, mas há muitas empresas de design de interiores especializadas na reprodução fiel da cadeira modernista. Inclusive, o couro tem sido substituído por diversos tipos de tecidos e estampas. Apesar de seus 76 anos, a BKF ainda é muito popular, mas, como manifestaram os autores, ela é mais do que um simples objeto funcional, é também uma obra de arte. E, hoje, ainda traz consigo uma forte carga cultural. Quem tem o privilégio de ter uma BKF decorando a sua casa, não tem apenas um cadeira, mas um dos melhores exemplos de escultura contemporânea.

As diferentes formas de se sentar numa BKF. Fonte: es.paperblog.com

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Xadrez na sala de aula

Muito já se foi falado sobre a importância da utilização do jogo de xadrez em sala de aula. Seja na disciplina de matemática, educações artística ou física, o xadrez é um ótimo parceiro na educação de crianças, jovens e adultos, principalmente, pela sua característica socioeducativa que estimula a cognição. A prática do jogo permite ao aluno uma maior concentração e atenção diante do aprendizado; desenvolvimento do raciocínio e, até mesmo, da imaginação.

De acordo com os enxadristas Felix Sonnenfeld e Idel Becker, o xadrez pode ser definido como jogo, ciência e arte. Ou seja, em uma única atividade, são reunidos o esporte, com sua competição e divertimento; o estudo, com a pesquisa e o descobrimento; e a beleza, com sua admiração e harmonia.

O ideal seria estabelecer o xadrez como uma disciplina e não somente como ferramenta educacional complementar. Mas, enquanto as grades escolares não são modificadas, os professores podem fazer uso desse jogo de tabuleiro em suas aulas. Eu mesma já fiz isso, durante o meu estágio no período de faculdade de História.

Dois livros básicos sobre xadrez. Um com as regras e estudo dos movimentos e o outro sobre a história do jogo. Sob eles está a minha mesa de xadrez, em madeira marchetada, original do século XIX.

Como o tempo de disciplina é curto, não me foi possível esmiuçar todos os detalhes do jogo, nem mesmo me detive em explicar o objetivo e o movimento das peças. No entanto, fiz uso da imagem simbólica do xadrez para explicar a sociedade feudal da Idade Média europeia.

Dessa forma, dividi a turma em grupos e os ajudei a organizar as peças no tabuleiro. Inicialmente, fiz uma pequena introdução à história do xadrez. Apesar de grande controvérsia, a maioria dos historiadores concorda que o xadrez nasceu a partir da combinação de jogos de guerra e azar e jogos de lógica e estratégia, provavelmente alguns séculos antes de Cristo em alguma região do Oriente.

O jogo de xadrez chega a Europa por duas vertentes, tanto pela invasão de Espanha, Portugal e da França pelos árabes no início do século VIII, como também pelas rotas comerciais na região do Mediterrâneo. A chegada da cultura islâmica na Europa trazia consigo os conhecimentos do oriente. Os europeus assimilaram e adaptaram os costumes orientais ao seu modo de vida. Dessa forma, o jogo de xadrez ganhou uma nova cara, deixou de lado as representações dos soberanos asiáticos e da fauna típica, como os elefantes, para dar lugar aos reis e aos cavalos.

A partir daí, expliquei como se dava a organização do mundo medieval na Europa ocidental. Segundo o grande medievalista Jacques Le Goff, o feudalismo foi “um sistema de organização econômica, social e política baseado nos vínculos de homem a homem, no qual uma classe de guerreiros especializados – os senhores –, subordinados uns aos outros por uma hierarquia de vínculos de dependência, domina uma massa campesina que explora a terra e lhes fornece com que viver”.

Dessa forma, expliquei aos alunos que no xadrez está representada a composição social e política do feudalismo. Vejamos: em primeiro lugar, o xadrez é um jogo de guerra, isto é, dois exércitos lutam num campo de batalha com o objetivo de vencer o inimigo. Durante os primeiros séculos que compreendem a Idade Média, os europeus conviviam com a realidade das invasões de território. A guerra era um hábito e se preparar para ela era considerado mais do que normal, e sim, necessário.

Em relação às peças, a principal delas é o Rei representando os nobres (o poder temporal), os quais detinham a posse das terras e se dedicavam basicamente às atividades militares. Diferentemente do jogo oriental que não possuía a figura feminina, o xadrez europeu permite ao Rei a companhia de sua consorte, a Rainha. E, acredito eu, esse fato se dá, principalmente, para expressar a união cristã, ou seja, a influência da Igreja Católica nas decisões políticas e ideológicas. Tanto é, que no tabuleiro também o clero (o poder espiritual) está representado através dos bispos.

Os cavalos retomam o sentido da guerra, já que eram uma das grandes armas a serem utilizadas no campo de batalha. As torres fazem menção aos castelos medievais. Logo à frente dessas peças estão os peões que seriam uma espécie de infantaria do exército. Mas não deixam de representar os servos, isto é, os trabalhadores que compreendiam a maioria da população camponesa, responsáveis pelos trabalhos necessários à subsistência da sociedade.

Durante a aula, consegui percorrer sobre essas características, além de discutir a troca de conhecimento entre os povos, a assimilação de costumes e o por quê de até hoje jogarmos xadrez com peças referentes à Idade Média. Apesar de não tido tempo para ensinar as regras do jogo, as quais uns já sabiam, a grande maioria ficou interessada em aprender e, penso eu, que voltaram para casa com a intensão de jogar um pouquinho.

E, mais do que isso, tenho certeza que os alunos conseguiram compreender de forma lúdica a organização de uma sociedade que para eles é muito distante e de difícil absorção. Ao estabelecer a comparação entre o jogo e o feudalismo os alunos conseguiram entender o conteúdo da disciplina sem grandes esforços ou fórmulas decoradas. Ou seja, aprenderam brincando!

Na foto, eu aos 12 anos de idade acompanhada do meu primeiro professor de xadrez, Luiz Carlos de Oliveira, no clube de xadrez da escola. Os professores são grandes incentivadores!

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Visita: SENAI Espaço da Moda

A cidade de Nova Friburgo é conhecida em todo o país pela sua grande indústria de moda íntima. Muitos turistas visitam o município em busca da variedade de opções, da qualidade dos materiais e, também, dos baixos preços dos produtos. A ênfase da produção está na confecção de roupas íntimas femininas e maculinas, mas as lingeries sensuais, as roupas de dormir e as modas fitness e praia também são muito comuns.

O título de "capital da moda íntima" já vem desde a década de 1990, mas a relação de Nova Friburgo com a indústria têxtil remete aos princípios do século XX quando, após a inauguração de energia elétrica, empresários alemães instalaram suas fábricas de fios e bordados (Arp - 1911) e artefatos de tecido, couro e metal (Ypu - 1912) na cidade. Em 1925, o município passou a contar com a Fábrica Filó, especializada em filó de diversos tipos e outros tecidos e, em meados do século, contou com a criação de mais duas empresas, a Sinimbu (1953), produtora de fitas, e a Hak (1958), uma fábrica de fusos.

Em 1980, uma crise financeira levou a fábrica Filó, já vendida para a multinacional Triumph, a se reestruturar. Diante da reorganização de seu quadro funcional, mais de 600 empregados foram demitidos da empresa. Muitos deles, não tendo outra opção de serviço, utilizaram seus conhecimentos em costura para criarem seus próprios produtos. Dessa forma, iniciaram suas próprias confecções de roupa. Antes mesmo deste fato acontecer, já havia um número relevante de pequenas empresas, de caráter familiar mesmo, que fugiam do desemprego. Com a demissão em massa da Filó, ocorreu um aumento das confecções e o consequente acirramento entre elas, incentivando, assim, a diversificação e o barateamento dos produtos.

Desde então, Nova Friburgo conquistou um espaço no mercado nacional e internacional. Todos os anos, desde 1990, acontece na cidade a FEVEST, a maior feira de moda íntima do país, responsável pela divulgação e expansão dos negócios locais. Na edição deste ano, que aconteceu durante os dias 2, 3 e 4 de agosto, a Feira contou com uma nova programação: a inauguração do tão esperado SENAI Espaço da Moda. E, durante, esta semana, eu estive lá para conferir as novidades do local.


O Espaço da Moda está localizado numa das dependências da antiga fábrica de Rendas Arp (extinta em 2011). É um prédio amplo e que foi muito bem aproveitado para as novas finalidades, contando com instalações amplas e infraestrutura adequada. O objetivo principal do Espaço é se constituir como ponto de referência aos assuntos relacionados à moda íntima, tanto para estudantes como para profissionais. Para tanto, o Espaço oferece aulas através de cursos técnicos, desde os assuntos relacionados à costura, modelagem e planejamento de produção, até a manutenção de máquinas de corte e costura, e oferece suas salas e auditório, para reuniões, consultorias e conferências para aqueles empresários que sintam a necessidade de se atualizar e contar com o apoio e conhecimento de especialistas.

O térreo conta com as salas de aula e também com o laboratório de manutenção de maquinário, um local repleto de máquinas de costura, tanto mecânicas como eletrônicas, à disposição dos alunos. A fim de aproveitar o espaço, essas máquinas são acopladas a suportes de madeira que são armazenados numa espécie de estante. Para sua utilização, basta escolher um modelo e deslizá-lo pela estante. Há uma empilhadeira para desempenhar o transporte, evitando o carregamento de peso por parte do aluno. Enfim, o tabuado é apoiado em um outro suporte de metal, que lembra uma mesa e, dessa forma, o aluno pode, em um único local, usufruir de diversos tipos de maquinário. Além dessa otimização do espaço, foram confeccionados, pelos próprios técnicos do SENAI, expositores do funcionamento dos sistemas das máquinas de costura que consistem, basicamente, na apresentação do interior desses objetos, não somente estáticos, mas também em uso!

No primeiro andar, além de salas de aula, há também a biblioteca e materioteca. A biblioteca conta com um grande acervo de livros sobre os temas de arte, moda e desing, além de computadores. A materioteca é composta por uma espécie de araras onde estão dispostos as diferentes tipologias de tecido, através dos quais é possível compreender, por meio do olhar e do toque, o feitio do pano. 



O segundo patamar conta com um espaço voltado tanto para o público em geral como para os empresários. Lá estão o auditório, as salas de desenho e costura dos designers e as salas para workshops e reuniões. Há também um café e um espaço interativo com pufes e tapetes. O corredor de ligação entre esses espaços funciona também como local de exposição.




A exposição atual se intitula "Cenário #lingerie" e trata da história da moda íntima, desde 1900 até os dias atuais. É composta por pequenos textos explicativos sobre as mudanças no mundo da lingerie em cada década do século XX além de contar com belíssimas ilustrações. Para conhecer um pouco além do que está exposto, é só garantir para si um catálogo. Há a versão física, mas também a digital que é possível ser acessada aqui: www.firjan.org.br/espacodamoda.




Sem dúvida, o SENAI Espaço da Moda vai trazer muitas novidades para toda a região. E não só sobre o mundo da moda, já que a instituição envolve diversas áreas, desde arte até tecnologia. Nova Friburgo, uma cidade tão grande em ideias, estava precisando de um espaço voltado para a disseminação do conhecimento e da cultura.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Machado de Assis em hiperlinks

Já falamos aqui no blog sobre os clássicos da literatura e a importância de lê-los. Mas, convenhamos, os clássicos não são leitura fácil! Digo isso, não em relação à narração, que, na verdade, é a responsável por cativar o leitor, mas sim, a respeito da assimilação do contexto histórico, dos lugares, dos costumes, enfim, do escopo cultural que envolve todo romance. Às vezes nos deparamos com palavras complicadas, há muito não convencionais, ou somos apresentados a lugares distantes da nossa realidade. Acredito eu que essas são as dificuldades encontradas pelos leitores e que, muitas vezes, tornam-se verdadeiras barreiras para o desempenho de uma leitura harmoniosa.

Ler clássicos, recentes ou remotos, é uma atividade complicada. E assim o é porque eles nos transportam para um outro tempo histórico diferente, geralmente o passado, que também não é tarefa fácil de se compreender. De acordo com o historiador Eric Hobsbawm, o passado, muitas vezes representa, para a grande maioria das pessoas, uma terra de ninguém, uma "zona de penunmbra" de difícil assimilação, principalmente quando há uma mistura entre história e memória. Mas, entender o passado é importante; e poder fazê-lo através da literatura é prazeroso!

Para nos auxiliar na leitura dos clássicos, as editoras têm investido em edições com notas explicativas ou com uma breve apresentação dos costumes da época retratada no romance. A editora LP&M, por exemplo, nas edições da obra de Machado de Assis, além de nos apresentar ao cotidiano carioca do século XIX, ainda conta com uma mapa temático do centro histórico da então capital do Brasil, para que possamos nos familiarizar com a obra e compreendê-la melhor.

Da mesma forma, um grupo de estudiosos comandados por Marta de Senna (mestre em teoria da Literatura pela UFRJ), desenvolveu um site (parte de um projeto de pesquisa da Fundação Casa de Rui Barbosa, com o apoio do CNPq e da FAPERJ) sobre a obra de Machado de Assis com o objetivo de disponibilizar online todas as obras do grande escritor, mas com o diferencial de serem acompanhadas por referências identificadas no corpo do texto, ou seja, hiperlinks responsáveis por armazenar informações extras que venham a contribuir para compreensão da obra.

De acordo com o site (http://machadodeassis.net/), "o leitor poderá não apenas desfrutar o romance ou o conto em si, mas também achar, nas notas em forma de links, explicações sobre todas as citações e alusões do texto: tanto as de natureza simbólica (autores, obras de arte, personagens, fatos históricos referidos por Machado de Assis), como as menções a lugares e instituições não-ficcionais (bairros e ruas da cidade do Rio de Janeiro, lojas, teatros, cafés que as personagens machadianas frequentam)".

 Um exemplo encontrado em Memórias Póstumas de Brás Cubas.


Infelizmente, não há a opção de fazer download do conteúdo que só pode ser acessado através de uma conexão de internet. Além disso, tive dificuldades para utilizar o site pelo celular e por e-readers. Mas, espero que essas questões venham a ser sanadas futuramente. Por enquanto, já estou bem contente com a disponibilização das obras de Machado e mais ainda em poder desfrutá-las sem impedimento!

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Um olhar em preto e branco

Nas grandes capitais do Brasil e do mundo afora, a arte de rua domina a paisagem urbana. Qualquer tipo de suporte, seja ele um muro, uma fachada, ou um hidrante, vira tela para o artista. E, mesmo que não tenhamos nenhum conhecimento a respeito do autor, vamos nos familiarizando com os traços e as cores próprias de cada grafite.

Nas cidades interioranas, o grafite também está presente, mas em escala bem reduzida, provavelmente, devido ao velho conservadorismo... E isso ficou bem claro, durante essa semana, aqui em Nova Friburgo, região serrana do Rio de Janeiro. Domingo passado, dia 27, quem passava pelo centro da cidade, foi surpreendido pelo trabalho do artista pernambucano Derlon Almeida na fachada do prédio da Usina Cultural. A antiga parede branca estava dando lugar a uma obra de arte!

Primeiros traços de domingo.

O trabalho do Derlon é bem diferente dos grafites populares. Suas intervenções são inspiradas no método de xilogravura, técnica de gravação em madeira e que se tornou muito comum na literatura de cordel, manifestação artística típica do nordeste brasileiro. Os seus traços fortes em preto e branco já foram motivo de surpresa, mas, acredito eu, que a falta de hábito dos friburguenses diante da arte de rua também foi um grande fator para o sobressalto geral.

Não teve uma pessoa que não parasse para admirar o trabalho, mesmo se estivesse dirigindo e atrapalhasse um pouquinho o trânsito! A comoção foi geral, sem dúvida, principalmente, porque a imprensa ainda não tinha dado conhecimento do fato. Todo mundo queria bater uma foto ou dar uma palavrinha com o artista. Eu, claro, muito curiosa, aproveitei um momento de descanso do Derlon pra fazer umas perguntas a respeito do novo trabalho.


Em primeiro lugar, devo ressaltar a simplicidade do rapaz. Apesar de já ter exposto seus trabalhos nos principais centros artísticos do mundo, como Paris, Londres e Amsterdã, ele é muito simpático, atencioso e humilde. E, diante do seu histórico, a minha primeira questão foi sobre a sensação de produzir um trabalho no Brasil e numa cidade do interior como Nova Friburgo. Para ele, fazer uma intervenção num município pequeno é mais significativo do que nas capitais, isso porque, o ritmo da cidade é quebrado, a sua obra ganha mais visibilidade e importância para a população, o contrário do que acontece num grande centro urbano. Derlon também me contou que foi a primeira vez que visitou Nova Friburgo, uma cidade que só conhecia de nome, e que estava muito feliz por poder deixar um trabalho inédito para a população.

O prédio onde foi feita a obra de Derlon, propriedade da empresa de energia elétrica Energisa, é um imóvel antigo, datado da primeira metade do século XIX, mais precisamente, 1845. Está situado numa das esquinas mais movimentadas da cidade. Foi propriedade de Antonio Clemente Pinto, o Barão de Nova Friburgo, e lhe servia como adega e depósito de materiais de viagem. Inicialmente, era uma casa térrea com porta central e duas janelas de cada lado. Mas, em 1923, foi reformada e passou a ser um sobrado com dois pavimentos, características que são preservadas até hoje. Devido a sua importância histórica, este imóvel, bem como outros, foi decretado patrimônio cultural pelo município em 2012.

O prédio anteriormente. Crédito: Google Maps

Diante dessa informação, perguntei ao Derlon se ele já tinha grafitado em um bem tombado e qual era a perspectiva de poder fazer um trabalho num imóvel protegido. Ele me disse que já tinha passado pela experiência de grafitar uma igreja, mas que os trabalhos foram apagados pelo padre responsável. Ele também se mostrou muito surpreso em saber que o imóvel é considerado patrimônio histórico. Para mim, a produção artística, além de não interferir nas características do imóvel, promoverá a sua proteção através da conjugação do antigo e do contemporâneo.

E agora com nova cara!

A intervenção foi uma iniciativa do Festival Sesc de Inverno que teve como tema a arte de rua. O objetivo era proporcionar a interação entre o cotidiano urbano e manifestações artísticas, principalmente o grafite. Mais do que um belo presente, tenho certeza que a obra de arte do Derlon vai além do embelezamento da cidade. Durante quatro dias, a população assistiu ao espetáculo de um artista, interagiu com ele, mesmo que à distância, ao admirar e reconhecer a beleza de seu trabalho. Acredito que, a partir de agora, os friburguenses vão olhar a sua cidade com outros olhos, ao reconhecer o valor de um local bonito e agradável e a importância de mantê-lo conservado!


quarta-feira, 23 de julho de 2014

Drones e a guerra tecnológica

Por Vanessa Melnixenco e  Vinícius Prado da Fonseca*
"In the Age of the Almighty Computer, drones are the perfect warriors. They kill without remorse, obey without kidding around, and they never reveal the names of their masters". - Eduardo Galeano
Todos os dias, manchetes e noticiários estampam cenas cruéis de um mundo em guerra. Apesar da frugalidade e até frieza com as quais essas informações são transmitidas, o que mais afronta é constatar que a grande maioria das vítimas é de civis, pessoas inocentes que tentavam sobreviver em uma zona de risco e, talvez, até mesmo alheias às reais causas do conflito.
Infelizmente, não é de hoje que civis são vitimados em combates. O revolucionário Friedrich Engels, no século XIX, ficou horrorizado diante da explosão de uma bomba em Westminster Hall, “porque, como velho soldado, afirmava que a guerra se travava contra combatentes e não contra não combatentes”[1]. E se pudesse ter vivido o suficiente para assistir à Primeira Guerra Mundial, provavelmente, a sua repulsa seria maior.
A Primeira Grande Guerra contribuiu significativamente para a inovação tecnológica. Não há dúvidas, como disse o historiador Eric Hobsbawm, “que a guerra ou a preparação para a guerra foi um grande mecanismo para acelerar o progresso técnico”[2]. E esse grande conflito pelo qual a “Era dos Extremos” foi inaugurada, permitiu a criação de diversos inventos ou o desenvolvimento de tecnologias para fins militares, como os tanques, os armamentos pesados e os aviões. Esses últimos alcançaram sua maioridade durante a Segunda Guerra Mundial, quando foram essenciais para destruir alvos terrestres e marítimos, mas também, para aterrorizar civis.
Os avanços tecnológicos militares atingiram um patamar ainda mais elevado durante o período de Guerra Fria, quando armar-se era a melhor forma de proteger-se, a famosa “corrida armamentista”. E, de uns anos pra cá, o desenvolvimento da ciência tecnológica é cada vez mais veloz. Atualmente, a mais famosa arma de guerra são os veículos aéreos não tripulados, ou simplesmente, drones.
Os drones, veículos aéreos não tripulados (VANT), no jargão em português, são uma classe de aeronaves operadas remotamente. Diferentes nomenclaturas são utilizadas de acordo com características de tamanho (dentre os tipos mais comuns estão o nano e micro VANT, com escala desde centímetros a alguns metros), utilização (reconhecimento, transporte, vigilância, comunicação, etc) e nível de independência do operador (veículo remotamente operado, missão pré-planejada, coordenação de vários veículos, etc). 
Atualmente a pesquisa é focada, na sua grande maioria, em aplicações específicas (agricultura, vigilância, incursões militares, defesa civil, etc) ou na autonomia do veículo como agente inteligente da missão. A parte de telemetria e operação remota já tem bases bem consolidadas desde o desenvolvimento dos primeiros aeromodelos. Assim a tomada de decisão inteligente tem sido o foco de inúmeros governos e grupos de pesquisa, não no campo aéreo mas no estudo dos veículos autônomos em geral (terrestres e aquáticos). Uma infinidade de diferentes tipos de sensores podem ser utilizados para prover diversos níveis de automatismo. Desde simples controle de voo, passando por navegação autônoma, até mira automática já podem ser desenvolvidos utilizando tecnologias no estado da arte.
Como equipamento militar, os drones estão sendo utilizados, principalmente, em guerra de terror, ou seja, naqueles conflitos que, necessariamente, não estão concentrados em uma única região ou país. Apesar de poderem desempenhar um papel cirúrgico, milhares de pessoas inocentes estão sendo vitimadas por disparos e bombardeios.
Como vimos, há mais de um século que as guerras possuem uma característica impessoal. Bastava o apertar de um botão ou o virar de uma alavanca para uma bomba ceifar milhares de vidas. As vítimas existiam, mas eram invisíveis, apenas estatísticas. Todavia, as guerras atuais parecem ser ainda mais cruéis. Essa constatação foi feita pelo grande pensador contemporâneo Zygmunt Bauman ao sugerir que “os desenvolvimentos tecnológicos mais fundamentais dos últimos anos não foram pesquisados e introduzidos para aumentar o poder mortífero dos armamentos, mas na área da “adiaforização” da matança militar (ou seja, sua exclusão da categoria de ações sujeitas à avaliação moral)”[3].
Como ele mesmo diz sobre os drones, sua função manifesta, isto é, a função que se refere aos efeitos intencionalmente buscados, “é habilitar seu operador a localizar o objeto da execução”. Mas não estariam os drones possibilitando um desligamento moral do operador diante do alvo? Uma vítima inocente condenada pela mira de um drone não poderia ser justificada como um erro técnico? Se os drones podem desempenhar papéis tão precisos, por que ainda há tantas mortes de civis? Talvez a resposta esteja na sentença de Eduardo Galeano de que “quando as guerras vão bem, a economia vai melhor”[4].
*Mestre em Sistemas de Engenharia e Computação pelo Instituto Militar de Engenharia (1792). Bacharel em Ciência da Computação pela Universidade Federal do Tocantins.
[1]HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos: o breve século XX: 1914-1991. Tradução de Marcos Santarrita. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. 22p.
[2]Ibdem. 54p.
[3]BAUMAN, Zygmunt. Isto não é um diário. Tradução de Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2012. 167p.
[4] GALEANO, Eduardo. O teatro do bem e do mal. Tradução de Sérgio Faraco. Porto Alegre: L&PM, 2006.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Exposição: Salvador Dalí

Sábado passado, dia 12 de julho, fui com minha amiga francesa Lea conferir a tão esperada exposição das obras do Salvador Dalí (1904-1989) no CCBB do Rio. Só pudemos concordar com nossas expectativas: que a mostra está impecável! São cerca de 150 obras do artista, entre pinturas, desenhos, gravuras, fotografias, ilustrações, documentos e vídeos.


A maioria das obras é referente ao período surrealista, mas logo no início da exposição já somos apresentados a algumas fases um pouco desconhecidas de Dali, como as obras impressionistas, cubistas e abstratas. Ou seja, é uma exposição bem completa que nos leva a conhecer as várias facetas do artista e a sua evolução artística.

Além das diversas fases, o que mais me chamou a atenção foram as ilustrações que Dalí fez para diversos clássicos da literatura universal. Os desenhos inspirados em Don Quixote de La ManchaO Velho e o Mar e O Fausto são de uma beleza e profundidade incríveis. Aliás, acho que nenhum artista vai conseguir reproduzir tão bem as passagens de Alice no País das Maravilhas!


A museografia da exposição ficou muito boa. As obras estão bem organizadas, dispostas em ordem cronológica e bem iluminadas. No entanto, as legendas foram afixadas com uma certa distância dos quadros, o que dificultava um pouco na compreensão das obras. Outro problema que percebi é referente aos vídeos. O áudio de alguns deles só podia ser acessado por um fone. Logo, se o fone estivesse ocupado, era necessário esperar a pessoa terminar de usá-lo, algo que não é compatível com uma exposição desse porte.

De acordo com a curadora da exposição e diretora do Centro de Estudos Dalilianos da Fundação Gala-Salvador Dalí, Montse Aguer, esta é a maior reunião de obras do artista já feita no Brasil. Na verdade, essa exposição foi criada para o Brasil: cerca de 95% dos trabalhos expostos são inéditos por aqui! Foram necessários cinco anos para reunir todos os trabalhos. As obras vêm das principais instituições colecionadoras do artista: Fundação Gala-Salvador Dalí, em Figueres, Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofía, em Madri, e o Museu Salvador Dalí, na Flórida. Já os livros e documentos foram cedidos pelo Centro de Estudos Dalilianos.

Salvador Dalí fica em cartaz no CCBB-RJ até 22 de setembro e depois segue para o Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, onde poderá ser visitada de outubro a dezembro deste ano.


DICA: Chegamos por volta das 10 horas da manhã e não tivemos nenhum impedimento. Saímos em torno de meio dia e a fila já estava do lado de fora do prédio! Portanto, cheguem cedo!

quarta-feira, 9 de julho de 2014

A Paris de Assassin's Creed Unity

Há, praticamente, um mês, a Ubisoft anunciou oficialmente o sétimo jogo da série Assassin’s Creed, famosíssima pelas batalhas que revivem grandes épocas do passado, como as Cruzadas, o Renascimento e a Revolução Americana. Dessa vez, o jogo se passará em um dos momentos mais importantes da história: a Revolução Francesa.

De acordo com o site oficial (http://assassinscreed.ubi.com/), o jogo compreenderá desde a Queda da Bastilha até a execução de Luís XVI, isto é, de 1789 a 1794, o período mais violento da Revolução: quando a pena de morte foi mantida e a perseguição aos “inimigos da revolução e da pátria”, o “Terror”, foi ferrenha. Em outras palavras, um momento perfeito para os propósitos do jogo: uma irmandade de assassinos que luta para revelar as forças das trevas que manipulam a Revolução Francesa.

É sabido que a Revolução não se passa apenas em Paris, mas também na área rural, vide os movimentos por parte dos camponeses que atacavam os castelos para destruir os registros feudais, o “Grande Medo” dos nobres proprietários. No entanto, o novo jogo da Ubisoft tem somente a Paris de fins do século XVIII como palco. Parece pouco, até sermos apresentados ao trailer.

O gráfico é de arrepiar! As ruas estreitas, os casebres e edifícios baixos, o amontoado de barracas e pessoas, tudo com uma riqueza de detalhes impressionante! Com certeza, a equipe da Ubisoft teve um grande trabalho de pesquisa para reproduzir a Paris da Revolução, principalmente, por ter restado tão poucos resquícios desse período na urbe atual. A Paris que conhecemos hoje é fruto das reformas de 1851 a 1870 comandadas pelo prefeito Haussmann, uma cidade que estava sendo construída para atender as prerrogativas do mundo moderno e pós-liberal.

A Paris da Revolução Francesa era um espaço que ainda guardava uma razoável harmonia com o ambiente natural, isto é, uma cidade que se adaptava às condições do meio preexistente, às características do terreno e ao percurso dos rios. Essa é a razão das ruas tão estreitas, das casas amontoadas, sem planejamento ou equilíbrio.

E a paisagem urbana da Paris de Assassin’s Creed Unity está tão bem desenhada, que está chamando a atenção, até mesmo, dos especialistas. Por isso, eu decidi fazer uma tradução livre de uma entrevista feita pelo jornal francês “Le Figaro” a um especialista em história de Paris e do século XVIII. Fiquei com a impressão de que a entrevista poderia ter sido um pouco mais profunda, mas é muito interessante mesmo sendo curtinha. Espero que gostem!

"O trailer de Assassin’s Creed Unity passa pelo crivo da História


ENTREVISTA – A Ubisoft revelou essa semana o Assassin’s Creed Unity, o próximo episódio da sua famosa saga de videogame, que se passará em Paris durante a Revolução. Le Figaro pediu a Jean-Yves Sarazin, diretor do departamento de mapas e plantas da BnF, para avaliar a autenticidade histórica das primeiras imagens.

Jean-Yves Sarazin, diretor do departamento de mapas e plantas da Biblioteca Nacional da França, é especialista em história de Paris e mais particularmente do século XVIII.

LE FIGARO – Você acha que o trailer de Assassin’s Creed Unity reproduz fielmente a Paris da Revolução Francesa?
Sim, ele o faz muito bem. Nele, encontramos as características das ruas parisienses: aglomeradas, não muito limpas... À época, as ruas eram o cenário da vida cotidiana e isso fica evidente aqui. Apesar de alguns pensarem de modo nostálgico, a vida em Paris não era confortável. Havia também os resíduos e imundície nas ruas, mesmo já existindo serviços de limpeza. É obviamente impossível reproduzi-las em um jogo de videogame, mas as ruas de Paris não estão tão ruins. Não havia calçadas, o que bem vemos no vídeo.

As casas são semelhantes às quais podiam ser encontradas na época?
Os telhados e as fachadas são fielmente reproduzidos, esta é uma grande obra de reconstituição. Paris já era uma cidade de pedra nessa época, já não havia muitas construções em madeira, como mostrado no trailer.
Quando estamos no segundo distrito e nas áreas centrais, nós podemos ver uma quantidade de imóveis construídos na época. Prédios de quatro a cinco andares, os andares inferiores com um pé direito alto. Vemos também que os telhados parisienses são íngremes e sem terraço, esses últimos não existiam no norte da França.
Os interiores são bastante autênticos, mas é muito fácil reproduzi-los fielmente; há uma série de pinturas datadas deste período, pelas quais os criadores puderam se basear.

A população que vemos nas ruas corresponde aos parisienses de então?
Sim, nós vemos, por exemplo, a periferia de Saint-Antoine, nas imediações da Bastilha. É especialmente ali que encontramos os trabalhadores de Paris. Embora, deve-se ter em mente, havia muita pouca segmentação social em Paris. Não era de um lado a burguesia, as classes médias de outro. Havia uma mistura social muito mais sistemática do que a Paris de hoje, apesar de que algumas áreas já eram ricas em sua maioria.
Obviamente, a Revolução é um momento especial. Estamos, então, em um momento de turbulência, que se reflete nas ruas.

Você reparou alguma incoerência nos vídeos apresentados pela Ubisoft?
O que não aparece nos trailers são os cavalos. Entretanto, havia 200 mil cavalos em Paris – que, não podemos esquecer, era muito menos vasta do que hoje. Dessa forma, mesmo que todos eles não estivessem na rua, a quantidade seria grande. O cavalo era essencial para a vida cotidiana.
Vemos também um pouco de neblina no vídeo. Na verdade, havia muito neblina na época; a visibilidade em Paris não era muito boa. Todo mundo tinha um “foyer” na casa para aquecer e preparar as refeições. A queima de madeira, inevitavelmente, emanava uma grande quantidade de fumaça. Isso, certamente, diminuiu no verão, já que os parisienses não iriam precisar de aquecimento.

Você ficou convencido com a reprodução de Paris que pode ser vista no primeiro vídeo?
Sim, é muito interessante. Eu não encontrei nenhum anacronismo, quer no sentido de antiguidade, ou na direção da modernidade. Além disso, se quisermos ter uma ideia de como era a vida na Paris do século XVIII, é só irmos à Nápoles. Quando estamos no centro histórico de lá, e ignoramos os carros e telefones celulares, vemos como é a vida da cidade no seu exterior, exatamente como foi o caso de Paris.

A entrevista original pode ser vista aqui: http://www.lefigaro.fr/histoire/culture/2014/06/13/26003-20140613ARTFIG00419-la-bande-annonce-d-assassin-s-creed-unity-passee-au-crible-de-l-histoire.php